Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
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O “twist de John Ratcliffe, outra vez em Moscovo”, a ilustração da catástrofe ocidental
Publicado por
em 1 de Setembro de 2026 (original aqui)
O espetáculo do colapso do Ocidente é impressionante. Já não é tempo de falar em declínio ou crise. Todos os véus que ocultavam a realidade já se rasgaram. Primeiro, depois de 24 de fevereiro de 2022 e da intervenção russa na Ucrânia; depois, após 7 de outubro de 2023 e da transformação assumida de Israel num Estado genocida, de uma violência sem limites; e, finalmente, depois de 28 de fevereiro de 2026 e da guerra absurda lançada pelo Império contra o Irão. Produziu-se então um fenómeno bastante surpreendente. De cada vez, todo o sistema de informação ocidental afastou-se instantaneamente da realidade. E sejamos claros: pôs-se a contar absolutamente todo o tipo de disparates. As notícias falsas delirantes sucederam-se às notícias falsas grotescas. Relativamente à operação militar na Ucrânia, o autor destas linhas empreendeu, juntamente com alguns outros, um trabalho de reinformação sobre a guerra a partir do terreno. A verdade conseguiu avançar e a situação hoje é diferente, uma vez que uma grande parte da opinião pública compreendeu o que estava a acontecer. Mas, no que diz respeito ao sistema mediático e político oficial do Ocidente, o problema permanece inteiramente por resolver. Em todos os países que podem ser associados a esta parte do mundo, continua-se a dizer disparates. E esta propensão para inventar contos de fadas assume agora contornos de um fenómeno psiquiátrico. Isto é ainda mais preocupante porque a situação concreta já não é, de modo algum, aquela que existia antes das datas que citámos. O desfasamento torna-se vertiginoso, com um Ocidente a descrever um mundo que não existe, tentando convulsivamente parar o tempo e imaginando que pode permanecer nos anos 90. Os anos em que o Hegémon, embriagado por uma vitória fantasiada na Guerra Fria e, sob o efeito do «fim da história», se via como senhor do mundo para sempre.
Ucrânia, a derrota inevitável
No que diz respeito à Ucrânia, desde o início, a análise desta guerra da NATO por procuração contra a Rússia evidenciava um desequilíbrio entre os dois beligerantes que só poderia terminar mal para a Ucrânia. A opção da Rússia por uma guerra de desgaste, após o rompimento do tratado de Istambul, confirmava o destino pouco invejável que aguardava a Ucrânia. Transformada hoje, inevitavelmente, num Estado artificial e disfuncional, mantido à custa de enormes quantidades de apoio financeiro e material por um Ocidente que já não dispõe dos meios para sustentá-lo, a Ucrânia vem sendo, há quase cinco anos, alvo de uma sucessão de disparates que nos foram apresentados como verdades — cada um mais absurdo que o anterior — sobre a suposta vitória militar ucraniana inevitável, que todos os observadores sérios sabiam ser impossível. Enquanto isso, segundo o FMI, a Rússia tornou-se a quarta potência industrial do mundo e, de acordo com especialistas, a primeira potência militar. A isso acrescenta-se uma constatação estranha. Se alguns especialistas podiam considerar que atacar a Rússia por meio do golpe de Estado do Maidan, em 2014, era a última coisa que se deveria fazer, poucos suspeitavam qual era o verdadeiro estado da NATO. A organização, apesar dos seus 32 membros, revelou-se um tigre de papel. Sem que prestássemos atenção, as placas tectónicas haviam se deslocado — e muito. A guerra na Ucrânia acaba de revelar aquilo que essas placas tectónicas estavam a ocultar. O despertar é terrível.
Israel não é um país «normal»
Os acontecimentos de 7 de outubro de 2023 serviram de pretexto para que o governo supremacista israelita, amplamente apoiado pela sua população, lançasse contra o povo palestiniano uma campanha de extermínio de uma violência de espantar e com objetivos genocidas perfeitamente assumidos, ou até mesmo reivindicados. Diante desse horror, diante da acumulação diária e documentada de crimes, o Ocidente, com as suas políticas e os seus meios de comunicação, sempre tão prolixo sobre os seus «valores admiráveis» (general Fabien Mandon, CEMA), olhou para o outro lado e, em seguida, justificou o injustificável. Ao mesmo tempo, reprimiu ferozmente aqueles que tiveram a ousadia de protestar. No entanto, a evidência da catástrofe israelita, que já no outono de 2023 revelava a sua verdade terminal enquanto Estado colonial, racista e genocida, fazia prever um desaparecimento próximo dessa entidade que enveredou por uma fuga para a frente dessa natureza. A opinião pública mundial, incluindo a opinião pública ocidental, já não suporta a violência assassina nem a arrogância racista daquilo que se tornou um Estado pária. Até nos Estados Unidos, uma inversão total da opinião pública acabará por conduzir ao fim de um apoio que provocará inevitavelmente o desaparecimento de Israel. E assistimos no Ocidente, tal como no caso da Ucrânia, a um desfasamento total entre a realidade de um mundo que avança e a forma como ela nos é apresentada pelo bloco das elites. Com poucas nuances e contra todas as evidências, Israel é apresentado como um país normal. Sem perceber que o «Sul Global» está perfeitamente consciente de que, no mundo que está a ser construído, não haverá lugar para ele. Ou, melhor dizendo, para aquilo em que se tornou.
Os Estados Unidos expulsos do Oriente Médio
A agressão americano-israelita contra o Irão, em 28 de fevereiro de 2026, produz exatamente os mesmos efeitos. Um tsunami de informações fantasiosas, sobre as quais não vamos voltar em detalhes, mas apenas destacar o que as caracterizava: a força militar mais poderosa da História, acompanhada pelo exército «moralmente mais eficaz do mundo», iria simplesmente esmagar alguns criadores de cabras de sandálias, que ousavam não aceitar o jugo. Conhecemos o resultado exposto diante dos olhos do mundo, que podemos resumir brevemente: o imperador está cambaleante, atordoado e completamente nu. Expulso do Oriente Médio, com o seu exército materialmente exaurido e ridicularizado, a sua marinha em perdição, à beira do motim, as suas finanças à beira da falência, a derrota é homérica. E, no entanto, mesmo que a dimensão da catástrofe americana não fosse previsível a esse ponto, todas as pessoas dotadas de um mínimo de bom senso diziam que essa agressão era a última coisa a fazer. Mais uma referência ao autor destas linhas, que, logo no início de março, ao publicar uma foto de Donald Trump diante de Hegseth e do seu chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, fazia-o dizer: «Pois bem, senhores, digam-me agora como se faz para colocar a pasta de dentes de retorno à bisnaga.». Mas, da mesma maneira que nos exemplos anteriores, a política e os meios de comunicação do Ocidente acompanharam esses seis meses de guerra com uma descrição absolutamente desvinculada da realidade que qualquer pessoa podia observar. As mesmas mentiras, os mesmos delírios, o mesmo sentimento de superioridade, a mesma estupidez, muitas vezes.
John Ratcliffe educadamente (ou não) enviado de volta
Infelizmente, não devemos alimentar nenhuma ilusão: a distância entre a realidade de um mundo que avança rapidamente, quando não muito rapidamente, e a perceção que os sistemas de direção ocidentais têm dele continua a agravar-se. A tal ponto que não é exagerado dizer que isso assume um caráter patológico, provocado pela desorientação e, frequentemente, pelo pânico. Acabamos de ter um exemplo perfeito disso com a visita surpresa do chefe da CIA americana a Moscovo. Ninguém sabia de nada e todo mundo se lançou em descrições profundas. Eis, portanto, o chefe de uma das principais agências americanas, instrumento essencial do império, indo a Moscovo para encontrar o seu homólogo russo do SVR. Primeira estranheza: ele não utilizou o seu habitual avião oficial, mas sim uma grande aeronave de transporte militar. Todos os especialistas americanos, antigos membros da organização, deram a mesma explicação: o repatriamento dos corpos de agentes americanos mortos na Ucrânia. O que não tem nada de glorioso. Segunda estranheza: apresentaram-nos esta deslocação, que não teve nada de excecional, como o acontecimento excecional de um encontro com Vladimir Putin. Simplesmente grotesco, já que Ratcliffe passou oito horas (!) em Moscovo e falou, no máximo durante duas horas, com Sergei Narychkin. Como acontecimento histórico, convenhamos que se pode fazer melhor. Mas o pior, no fim de contas, é que, quando se tratou de explicar um pouco melhor o conteúdo desta deslocação, voltámos a entrar no delírio. Todas as hipóteses eram apresentadas, começando pela mais estúpida propaganda ocidental. Tomemos o exemplo hilariante de um Ratcliffe que teria ido explicar a Putin — que nem sequer viu — que este estava mal informado pelo seu círculo de assessores, que o mantinha afastado das boas informações. É de partir a rir quando sabemos que a CIA, na sequência da destruição de todos os seus instrumentos nas bases do Médio Oriente, está agora cega e surda relativamente a essa região.
Depois veio a tese do ultimato. Partindo das patranhas sobre as supostas intenções ofensivas dos russos contra os países bálticos, ou até sobre a possibilidade de reduzirem a cidade de Londres a cinzas, eis Ratcliffe a traçar linhas vermelhas — não, mas isto é demais! Com os seus pequenos braços musculados, cuja eficácia já vimos na Ucrânia e no Médio Oriente, o chefe da CIA está, de facto, particularmente bem colocado para vir fazer cara feia. Continuando no grotesco, esta visita teria como objetivo pedir a Putin — que, apesar de tudo, estava ocupado com outras coisas — que deixasse de apoiar o Irão e que deixasse de andar de amizade com a China. E tudo o resto segue a mesma linha, demonstrando a catástrofe em que se transformou a perceção da evolução do mundo num Ocidente fechado nas coordenadas do final do século XX, enquanto o resto do mundo galopa já pelo século XXI. Resta a questão da brevidade desta visita, posteriormente transformada num grande espetáculo destinado a caracterizar a grandeza intacta do Hegemon.
Acontece que a CIA, que foi um ator temível (e assassino) da Guerra Fria e das suas consequências, parece agora multiplicar os erros de avaliação. E, em todo o caso, seja na Ucrânia ou no Irão, sem esquecer anteriormente o Afeganistão, acabou por meter os americanos em verdadeiros vespeiros. A agência é hoje dirigida por alguém capaz de se comportar como um palhaço. Um grotesco disparate nasceu nas redes sociais, através de contas obscuras, sobretudo a partir da aplicação Telegram. Repetida aqui e ali, essas contas afirmavam que a esperança de vida de um soldado russo que chegasse à frente de batalha era de 35 minutos. Ninguém, fora de umas quantas tresloucadas (e ainda assim) que aparecem no programa «C ce soir», poderia dar crédito a tal coisa. Isso não impediu John Ratcliffe de dar o seu aval a esta absurda porcaria.
Além disso, demonstrou a sua radical incompetência militar ao atribuir essa quase instantaneidade à intervenção de drones que funcionariam com recurso a IA! Da próxima vez, promete, usará Alla Poedie [n.t. conhecida consultora internacional, analista geopolítica e defensora acérrima da soberania ucraniana] como fonte privilegiada.
Para compreender a brevidade desta visita a Moscovo, há, portanto, duas possibilidades.
Ou John Ratcliffe foi pedir ajuda para sair com alguma dignidade dos vespeiros em que os americanos se meteram. Nesse caso, os russos devem ter-lhe dito que não tinham tempo a perder e tê-lo-ão convidado, certamente com toda a educação, a voltar a apanhar o avião para ir dizer ao seu presidente que ele que se desenrascasse.
Ou veio debitar as habituais asneiras da propaganda ocidental, que constatamos que ele agora assume como suas. Se foi esse o caso, os russos devem ter-lhe dito que não tinham tempo a perder e tê-lo-ão convidado, talvez com um pouco menos de delicadeza, a voltar a apanhar o avião para ir brincar com os seus soldadinhos de chumbo.
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O autor: Régis de Castelnau [1950 – ], advogado francês nascido em Rabat (Marrocos), de uma antiga família da nobreza de Rouergué, é licenciado pela Universidade de Paris Pantheón Assas, especializado em direito social e económico. Advogado empenhado, tornou-se próximo do movimento operário francês e nos anos 70 tornou-se um dos advogados do Partido Comunista Francês (PCF) e da CGT. Em especial, liderou a defesa dos trabalhadores da indústria siderúrgica entre 1978 e 1982. A partir desta experiência, escreveu um livro, La Provocation2, escrito com o escritor François Salvaing. Como membro do gabinete da Comissão de Política Externa da PCF (La Polex), desenvolveu uma actividade internacional significativa e reuniu-se, nomeadamente, com Indira Gandhi em 1982 e Mikhail Gorbachev em 1987. Os seus compromissos valeram-lhe no Eliseu a alcunha de “Barão Vermelho. A partir dos anos 90, ao analisar a importância crescente das questões jurídicas no processo iniciado em França pelas leis de descentralização de 1982 e 1983, reorientou as suas actividades para o direito público local. É Presidente do Instituto de Direito e Gestão Local desde 1997. Ensinou direito urbanístico na Universidade de Borgonha e direito da responsabilidade pessoal dos decisores públicos locais na Universidade de Paris II Panthéon Assas. Publicações e escritos: paralelamente a uma forte atividade doutrinal que assistiu à publicação de vários trabalhos, incluindo Le Fonctionnaire et le Juge pénal em 1997, Portrait des chambres régionales des comptes em 1997, Pour l’amnistie em 2001, Les Chambres régionales et territoriales des comptes em 2004, escreveu também muitos artigos na imprensa especializada e geral.
Dirige o site Vu du droit, onde publica artigos sobre acontecimentos actuais do ponto de vista jurídico. Em 2019, aderiu ao Partido da República Soberana de Djordje Kuzmanovic, uma cisão de La France insoumise.



